Como um quadrinho amazonense busca resgatar um episódio esquecido da história do Brasil?
31/08/2025
(Foto: Reprodução) HQ amazonense resgata Batalha Naval da Revolução Constitucionalista em Itacoatiara, no AM
Uma história em quadrinhos produzida no Amazonas revisita um episódio pouco conhecido da Revolução Constitucionalista de 1932: a batalha naval que ocorreu no município de Itacoatiara, no interior do estado. A obra é assinada pelo Black Eye Estúdio, tem lançamento previsto para novembro, e busca valorizar o papel da região Norte em um dos momentos mais marcantes da história política do Brasil.
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🔍A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um levante liderado por São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas, exigindo a convocação de uma nova Constituição.
No Amazonas, cidades como Parintins aderiram à revolta, improvisando embarcações para tentar alcançar Manaus. A repressão em Itacoatiara impediu o avanço, mas o episódio revelou a força da insatisfação regional.
A história em quadrinhos recria, em imagens cinematográficas, o confronto entre tropas governistas e rebeldes, ocorrido às margens do rio Amazonas.
“A principal mensagem é que temos histórias incríveis de Norte a Sul do Brasil que merecem ser lembradas e transformadas em grandes narrativas. Ao mesmo tempo, queremos reforçar que, apesar da força das imagens, a guerra nunca é bem-vinda — ainda mais quando falamos de uma guerra civil”, explicou o jornalista e roteirista da obra, Emerson Medina
Além de Medina, o projeto traz artes de Romahs, participação de Beatriz Mascarenhas na revisão, Thais Mannala com a edição e Tieê Santos responsável pela arte final.
O prefácio da HQ é assinado pelo jornalista e pesquisador Gonçalo Junior, conhecido por seus estudos sobre cinema, imprensa e quadrinhos.
Segundo Raphael Russo, historiador e integrante do estúdio, o objetivo da obra é destacar a relevância da Amazônia no cenário político nacional.
“A Batalha de Itacoatiara mostra que o movimento de 1932 não ficou restrito ao Sudeste. Ele teve repercussões em todo o país, inclusive na nossa região”, afirmou.
Trecho de uma das páginas da HQ
Divulgação
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🚢 Entenda a batalha naval
A batalha naval ocorrida em Itacoatiara é considerada a única do século XX antes da Guerra das Malvinas. O confronto aconteceu em 24 de agosto de 1932, durante a Revolução Constitucionalista.
Na ocasião, os navios Ingá e Baependy, que apoiavam os legalistas paulistas, enfrentaram as embarcações Jaguaribe e Andirá, ligadas às forças governistas. O embate aconteceu em frente à cidade de Itacoatiara, às margens do rio Amazonas, e marcou a chegada da guerra civil ao Norte do país.
O doutor em história social Caio Giulliano Paião, explica que o movimento é um exemplo emblemático da capilaridade da Revolução Constitucionalista. Civis e militares da região do Baixo Amazonas, insatisfeitos com a centralização política promovida por Vargas e com a nomeação de interventores federais, decidiram apoiar a causa paulista.
A tomada dos vapores Jaguaribe e Andirá como embarcações de guerra improvisadas mostra a criatividade e a ousadia dos revoltosos, que pretendiam alcançar Manaus e ampliar o levante no extremo norte do país
Conforme o professor, a chegada dos navios rebeldes Jaguaribe e Andirá, vindos do Pará e ocupados por militares insatisfeitos com o governo de Getúlio Vargas, representava uma ameaça direta à nova administração estadual
“A chegada dos dois navios que os transportavam podia acender um pavio perigoso para a instalação da nova administração estadual. O prefeito e o vigário da cidade, padre Joaquim Pereira, foram a bordo dos navios rebeldes para tentar evitar um bombardeio", destaca o especialista.
As negociações não progrediram e, após uma trégua para evacuar a cidade, os navios iniciariam o ataque. É dito que a ação dos dois serviu para ganhar tempo até a chegada dos legalistas. Então, antes do prazo terminar, os navios legalistas realmente chegaram, dando início ao que ficou conhecido como "Batalha Naval de Itacoatiara".
O historiador ainda cita que a população itacoatiarense ficou inquieta com os boatos sobre o confronto. ”Certamente, o medo deve ter se instalado e as informações deviam ser aumentadas e desencontradas, insuflando o pânico. As pessoas temiam morrer no fogo cruzado”
“A batalha entre os navios rebeldes e legalistas durou cerca de 40 minutos. Boa parte das vítimas, em torno de 60, morreu afogada com o naufrágio dos navios rebeldes. Os sobreviventes nadaram e adentraram a mata. Mais tarde, agricultores chamaram as autoridades para prender os fugitivos. Ninguém queria arrumar problema para si depois do conflito” relata Paião.
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Arte retrata a batalha entre as duas embarcações
Divulgação
⚔️93 anos da Revolução Constitucionalista de 1932
A Revolução Constitucionalista foi um movimento armado liderado pelo estado de São Paulo, que defendia uma nova Constituição para o Brasil e era contra o autoritarismo do Governo Provisório de Getúlio Vargas
Segundo informações da cartilha “A Participação dos Prudentinos no Movimento da Revolução Constitucionalista de 1932”, da Polícia Militar, Getúlio Vargas havia tomado o poder, em 1930, por meio de um golpe e retirou o poder da hegemonia política de São Paulo e Minas Gerais.
O descontentamento paulista aumentava e o governo getulista, que se dizia provisório, já se consolidava no poder e nomeava interventores para administrar os estados. E São Paulo recebia interventores que não eram paulistas e que administravam seguindo determinações da União.
Para o historiador Benjamin Resende, de 89 anos, o momento de estopim do conflito foi quando, em 23 de maio de 1932, jovens foram mortos por agentes ligados a Vargas.
"A situação foi aumentando cada vez mais e chegou em maio de 1932, a turma não aguentava mais. Os estudantes do Largo São Francisco fizeram uma revolta e cinco deles foram mortos, M.M.D.C.A. [Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo e Alvarenga]. Eles falam em quatro, mas são cinco. Então, aí, praticamente São Paulo foi à luta”, avalia Resende
Foi então que, em 9 de julho de 1932, dava-se início à Revolução Constitucionalista, que tinha como objetivo a retomada do poder democrático e a promulgação de uma nova Constituição.
“Com a morte dos estudantes, essa reunião toda se expandiu por todo o Estado de São Paulo. E a função da Revolução de 32 era contra a Constituição que Getúlio fez em 1930, porque ela era uma Constituição antidemocrática”, frisa Resende.
Oficialmente, morreram 943 pessoas na Revolução Constitucionalista de 1932. Os conflitos começaram em 9 de julho - feriado estadual em São Paulo - e foram encerrados em 2 de outubro, quando as tropas constitucionalistas se renderam.
Soldados prudentinos no front de batalha
Museu e Arquivo Histórico/Arquivo
Revolução de 1932 é comemorada no dia 9 de julho